A maior mostra de arquitetura e design de interiores deste ano foi um convite à reflexão.

Todos os anos aguardamos e esperamos que a CasaCor chegue à nós com os novos ares do que está sendo tendência no mundo e, por ser uma mostra que acontece em diversas cidade do Brasil e da America Latina (Perú, Bolivia, Paraguai e Equador), mescla a globalidade com a regionalidade de forma singular. Os expositores são anualmente desafiados a traduzir o que é tendência em bem viver e o morar contemporâneo.

A palavra deste ano é RESSIGNIFICAR. Obviamente originada pela necessidade de ser singular num mundo de grandes concentrações populacionais e produções em série. Um movimento que vem surgindo da demanda de nos sentirmos únicos diante de tantas e tão diferentes possibilidades. E quando trazemos esse “comando” ao estilo de viver, para dentro de nossa vidas, para o nosso cotidiano dentro de nossas casas, ressignificar objetos se torna um exercício de repensar o uso deles e buscar entender o que realmente é ESSENCIAL, outro conceito que permeia nossa atualidade e que também foi tema da mostra deste ano.

Logo na entrada da mostra nos deparamos com uma instalação do arquiteto pernambucano radicado na Italia há mais de duas décadas Ricardo Bello Dias. Uma escada que leva ao infinito que foi idealizada a partir de uma obra literária de um dos mais importantes escritores do século 20, Italo Calvino, que em sua obra Seis Propostas para o Próximo Milênio se preocupava, no âmbito da literatura, com aspectos como leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Conceitos que se fazem tão presentes e atuais na concepção do morar.

Mas vamos lá. A partir daí o visitante inicia sua imersão nos ambientes da CasaCor, um a um, sendo convidado a mergulhar na proposta de cada profissional que o idealizou. Uma experiência multissensorial, vez que temos não apenas o que olhar, mas cheiros, música, sons, texturas, provocações, tridimensionalidades e tantas outros imputs para dirigir nossa atenção.

É impossível não notar a vedete. A MADEIRA. De cima a baixo, de um lado ao outro. Os expositores usaram e abusaram deste material tão versátil e democrático, que aceita a parceria de quase qualquer outro material. E foi o que encontrei: ela de mão dada com concreto, de braço dado com couro, flertando com tecidos, compartilhando suspiros com pedras, mármores, metais e revestimentos dos mais delicados aos mais brutos. Da decoração mais clássica à mais moderninha e cool, ela cai bem em qualquer ambiente. Vamos aos destaques:

Loft de Praia Andrea Teixeira e Fernanda Negrelli – usam madeira desde o revestimento de quase todas as paredes e no mobiliário.

Espaço dos convidados por Denise Barreto – pranchas maciças gigantes de pequiá bruto na área gourmet, parede revestida de madeira escura no living, porcelanato também remetendo a madeira.

 

Suíte Black por Gustavo Neves – Cama executada em madeira que recebeu tratamento de carbonização. Aqui o arquiteto (brilhantemente) reuniu presente e passado, pois tomou partido da parede descascada do Jockey Clube, deu foco de luz para a abóbada original da construção e nos ofereceu a sensação de estar num palácio e num hotel de luxo moderníssimo, tudo ao mesmo tempo.

Casa Brasil por Leo Romano – Tirou a sala de jantar do lugar comum. Fez uma “casinha de ripas” de pinus e nos levou à brincadeira da infância. E ainda provocou o visitante com o efeito Hi-low da decoração e contextualizou esta provocação usando belíssimas peças genuinamente brasileiras como a cadeira de balanço de Oscar Niemeyer.

 

 

Casa do Bosque por Olegário de Sá e Gilberto Cioni – Madeira no piso, parede e teto. Tudo muito bem orquestrado com a brutalidade da parede de pedra e a suavidade do rosa candy das cadeiras e da marcenaria. Bravo!

 

Acima, mais quatro ambientes em que a madeira reinou no teto:

1 – Ateliê por Très Arquitetura. Detalhe para a mesa de trabalho, também em madeira, mas sendo um contraponto de peso diante da leveza do restante do ambiente;

2 – Casa Cosmopolita por Paola Ribeiro que igualmente usou madeira nos brises que controlam a ventilação e a luminosidade;

3 – Loft Romanov por Suíte Arquitetos que compuseram lindamente a madeira e o cimento queimado na parede e no forro;

4 – Loft SP por Studio 011, que trouxe paz e aconchego para este quarto compondo uma caixa de madeira que acolhe no final de um dia atribulado.

E aqui outros cinco modelos de uso da madeira na parede:

1 – Sala íntima por Paula Neder. Usou cinco tonalidades de madeira nos tacos para produzir um efeito degradê e tridimensional. Uma provocação visual que prende a atenção.

2 – Casa Niwa por Yamagata Arquitetura. Um único matiz de madeira escura para revestir paredes e a longa estante composta por portinhas que ora escondem, ora mostram objetos afetivos essenciais.

3 – Lounge dos amigos por Patricia Hagobian que usou madeira ripada nos 20 metros de parede do ambiente e um imenso sofá curvo para aproximar o bate papo entre amigos.

4 – Suíte Master por Thiago Manarei e Ana Paula Guimarães enfelparam de madeira clara todo o quarto para acolher calorosamente esta suite.

5 – Sala de Jantar por Toninho Noronha. Um espetáculo a parte esta sala de jantar ao mesmo tempo  tradicional e desamarrada de qualquer estilo. Trabalhando em escalas de cinza e azul nos tecidos e móveis, o arquiteto aplicou madeira nas paredes de maneira como se estivessem descoladas das mesmas, oferecendo ao visitante uma intrigante sensação de flutuação. Brilhante!

Outro ponto forte desta edição foi o rosa. Ele vem clarinho expressando suavidade. Mas usado na decoração tira de cena, definitivamente, o título de “cor feminina”. Muito bem explorado em diversos ambientes como no Closet de David Bastos (1) que usou esse tom com a premissa de abrigar o amor independente do gênero. Na sala de jantar de Olegário de Sá e Gilberto Cioni (apresentado no inicio da matéria) as cadeiras rosas oferecem o suavidade diante da parede de pedra bruta. No restaurante projetado por Patricia Genovese e Guilherme Longo (2) sentimos uma brisa retrô logo à primeira vista. Usaram veludo rosa pálido nas cadeiras e mesclaram com o verde Pantone do ano, Greenery, azul, pedras nobres e dourado para garantir que o ambiente levasse o visitante ao passado.

E por fim, mais um uso feliz dos arquitetos da Yamagata que usaram com riqueza o rosa claro na marcenaria do banheiro (3).

 

 

 

Muitos aplausos. Eu pude dar muitos aplausos e por diversos momentos meu queixo caiu com tamanha beleza e sensibilidade que alguns profissionais se expressaram. Outros chamaram atenção pela audácia e pelo desprendimento ao “normal”. Aqui meus destaques pessoais:

Leo Shehtman que trabalhou as geometrias, as nuances do monocromático preto e branco e os contrates de luz e sombra. Tudo isso minuciosamente detalhado para gerar uma experiência visual ímpar.

 

Mariana Crego em sua Casa Sustentável buscou a certificação de mais alta qualidade para projetos sustentáveis (AQUA – HQE) e fez com que a casa fosse facilmente montada e desmontada, usou painéis fotovoltaicos para geração de energia por captação de luz solar e também reaproveitamento de água da chuva. Tudo isso pensando na economia do funcionamento da própria casa e ainda gerando menos resíduo na construção e desmonte da mostra. A arquiteta ainda dá um show de beleza usando revestimento produzido a partir de reciclagem de lâmpadas fluorescentes. E para fechar com chave de ouro escolheu uma obra de arte original e única para o quarto: um desenho em parceria das artistas kaju e claros.

 

Aliás, esta preocupação está presente do início ao fim do evento. Ações diretas da organização estimulam desde os idealizadores dos espaços até os executores a repensar a maneira de gerar e tratar resíduos, economia de água e energia usando produtos e estratégias específicos. Empenho que iniciou em 2015, toma fôlego nesta edição e tem a intenção de expandir ate 2020, como um pilar e um compromisso com o fato de que cada vez mais devemos repensar nosso consumo e o impacto que cada um de nós gera ao meio ambiente.

Marilia Veiga criou um Estúdio do Curador de Arte de tirar o fôlego pela beleza e sofisticação sem perder a simplicidade do que é, novamente, essencial. Um grande paredão verde que abriga obras de arte perfeitamente iluminadas e termina num lounge super convidativo à longas conversas sobre arte. Para expor catálogos, a arquiteta instalou uma mesa ampla de desenho limpo e iluminação precisa. Mesclou tons de azul e cinza nos tecidos e desenhou uma estante nada convencional em diagonais para expor livros.

Sandra Moura esbanjou talento ao criar o Estúdio do Artista partindo do ponto de vista do próprio artista que homenageou, o paraibano José Rufino. Uma foto enorme de Mata Atlântica que cria a ilusão de um janelão para a floresta. Para integrar todos os ambientes de seu espaço, criou uma estrutura metálica que percorre desde a entrada até o lounge, cozinha, escritório, closet e suíte. A estrutura se repete, em forma e beleza, no jardim.

 

 

Triart Arquitetura brilhou em sua proposta para o Estudio 55+ integrando ambientes para tornar a casa em um transitar prático entre os ambientes completamente integrados, delimitando apenas visualmente o “quarto”. Palavra que nem cabe ser usada aqui já que cama, closet e banho são abraçados por uma caixa verde para remeter a natureza dentro de casa. Os três profissionais aliaram peculiar bom gosto, contemporaneidade e traços de estilo industrial (Leia o meu post sobre este estilo tão legal). So cool!

 

 

SP Estudio nos deu um fôlego a mais em nosso passeio pelos ambientes quando nos invadiu com ternura e calma nesse Quarto de Bebê. Vale ressaltar que o quarto abriga três fases do crescimento: desde cedinho com um berço suspenso em macramê (que não dá pra tirar o olho de tão lindo), passa pela fase (difícil – quem é mãe sabe) em que a criança não fica mais no berço e já pode dormir numa cama baixinha até atingir uma idade que a permita dormir numa cama de altura tradicional. Além disso, o espaço abre suas portas para a imaginação. E para trazer arte para um quarto infantil, a dupla convidou a artista Adriana Mantô para desenhar uma exclusiva folhagem para proteger o bebê e embalar seu soninho. Uma paixão só!

Enfim, queridos leitores. As tendências atuais favorecem os três ‘R’s do milênio (Reduzir, Reutilizar, Reciclar). O ‘pulo do gato’ é aplicar isso sem perder a classe, o charme, o sentido e o valor da decoração. Este é o exercício de ressignificar objetos essenciais e afetivos, e integrar ambientes para convívio mais próximo entre família e amigos. Preservar as individualidades sem perder nunca o espírito de coletivo.

Quando moramos bem dentro de nossas casas, quando emprestamos os recursos do universo de forma consciente e devolvemos da maneira menos impactante possível, fica mais suave o morar dentro de si mesmo. E o reverso também é verdadeiro. A casa reflete o bem estar interno de seus habitantes e nela, assim como em nossas mentes e corações,  devemos apenas deixar entrar o que nos é estimado e que tenha essência.

Fonte das imagens: CasaCor